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Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
67 anos, psiquiatra, escritor

Rumo à faculdade de Medicina


Quando estava no terceiro colegial, resolvi trabalhar durante o dia e estudar à noite porque meus pais já se sacrificavam bastante. Por meio de um anúncio de jornal, consegui meu primeiro emprego de office-boy em um escritório. A Soteca ficava no Edifício Conde Prates, no centro. Mas, nessa função, fiquei menos de um mês. Na hora do almoço, enquanto os outros rapazes pingavam bola, eu só ficava de olho naquela fila de datilógrafas que trabalhavam em máquinas com um carrinho imenso. Eu tinha uma Remington em casa e já datilografava meus trabalhos de escola. Perguntei para o chefe, seu Dario, se eu poderia mexer naquelas máquinas. Ele concordou caso alguém se dispusesse a me ensinar, desde que fora do horário do expediente. Com a Francisca, a chefe das datilógrafas, aprendi a tabular, fazer contas na máquina de escrever. Um dia, faltou uma datilógrafa e acabei ficando como datilógrafo. Faltou o caixa e eu disse para o chefe que podia confiar em mim, aprendi a fazer movimento, recibo. Com 18 anos, já era o caixa de uma empresa. Trabalhei ali um ano e depois parei para fazer o cursinho.

No vestibular, fui excedente na Pinheiros [a Faculdade de Medicina da USP], não passei na Paulista e entrei em Sorocaba em quarto lugar. Encontrei dificuldades na época, achei que não conseguiria pagar. Não me matriculei em Sorocaba porque queria estudar na Pinheiros que, além de ser a melhor do Brasil, não era paga e foi onde meu tio Fumio e Sadae, minha prima mais velha e filha da tia megera, estudaram.

Fiz novo ano de cursinho e voltei a dar aulas de judô. Meus alunos eram indicados pelo doutor Oscar Farina, pediatra e dono do cursinho, e, além da academia, ia à casa das crianças. Prestei mais um ano e realizei meu objetivo. Posso dizer que o ano em que entrei na faculdade foi a grande mudança na minha vida mesmo.

Um pouco antes de entrar na faculdade, já andava questionando essa coisa que havia lá em casa, muito tradicional, de que tudo era ‘primeiro filho’, ‘segundo filho’. Isso tinha um peso muito grande de fazer só o que os pais queriam. Isso não era para mim, queria escolher o que fazer. Meu avô, por exemplo, fez com que todos os irmãos pagassem o estudo de um. Em qualquer casa, a véspera de prestar o exame para o vestibular deixa a família toda tensa e, no meu caso, ninguém nem soube. Passei por dois anos consecutivos na Faculdade de Medicina e isso era uma coisa de deixar a família orgulhosa, mas quando cheguei em casa depois de comemorar com os amigos, meu irmão me perguntou por que eu estava tão contente. Meus pais devem ter ficado contentes, mas não falaram nada nem fizemos festa. Aliás, essa era uma característica bastante comum: ter parcimônia em elogiar, principalmente os próprios filhos, mas não dispensar as broncas. A única vez que meu pai se manifestou sobre isso foi para dizer que queria que eu fosse cardiologista, a especialidade de seu irmão Fumio. Só davam importância para o que o irmão mais velho fazia.

Então, quando entrei na faculdade cheguei à conclusão de que estava na hora de dizer que não desejava influências na minha vida. Arrumei um argumento muito bobo, do tipo encrenca com um irmão, e disse que sairia de casa. Fui morar na Casa do Estudante Pobre de Medicina. Não fiquei magoado, mas acho que paguei de outro jeito, considerando-me sem direitos a nada. Tudo o que tinha deixei na casa, incluindo meus livros. Minha mãe ficou assustadíssima, mas nenhum dos irmãos tocou no assunto. Mais ou menos um mês depois, meus pais foram até a Casa do Estudante e me disseram para voltar para casa, que eles me ajudariam. Não havia saído brigado, mas agradeci e não voltei. Eles disseram que não atrapalhariam as minhas escolhas (e repetiram isso mais tarde, em outra ocasião decisiva). Acabei marcando uma posição que não poderia ser feita se estivesse dentro de casa — e que não era comum alguém fazer nessa época.

Comecei a faculdade e tinha que ganhar dinheiro. Sempre conciliei o curso com essa coisa de me virar. Fui representante de laboratório e o primeiro carro que comprei era um táxi, um fusca azul, e tinha um motorista para dirigir de dia e outro para a noite. Meu segundo táxi foi um DKW e, no quinto ano, vendi um dos carros para viajar à Europa por dois meses e meio com 65 colegas da faculdade. Comecei a viver de plantão, tive que me virar para pagar as despesas. Aí sim começou a minha vida de médico, pois no quinto ano já dava plantão em pronto-socorro. Como o dinheiro andava bem curto, vendi até títulos de clube de campo. No meu trabalho, sempre digo que a gente tem que ser campeão, de que a gente tem que superar a sua própria força. Nunca corri atrás de ser famoso. A fama veio porque sempre fiz a coisa que achei que deveria fazer. O reconhecimento disso, o sucesso, não depende de você, mas de outras circunstâncias. Nunca corri atrás de sucesso, mas do meu próprio desempenho. Essa mudança de foco, que aprendi com meu pai, me levou muito longe.

Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba


Enviada em: 02/07/2008 | Última modificação: 18/07/2008
 
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Comentários

  1. Susilene Uwagoya @ 3 Jul, 2008 : 06:19
    Uma história de muita luta e perseverança!!! E o sucesso como mérito! !!

  2. Klissia Tiba @ 3 Jul, 2008 : 14:52
    Olá Içami! Tudo bem? Parabéns pelo trabalho! Suas obras são muito boas! Temos o mesmo sobrenome, será que temos algum parentesco? Bom, eu vi que em sua galeria tem uma foto do brasão da família Tiba, você se importa se eu também colocar a foto na minha galeria? Obrigada. Sucesso para você! Klissia Tiba.

  3. Ryoki Inoue @ 4 Jul, 2008 : 18:41
    Tiba, velho colega! Parabéns por seu depoimento (biografia, na verdade)! A admiração que sempre tive por você, desde os nossos tempo de judô na Pinheiros, ficou ainda maior depois de tê-lo visto fazendo sucesso na psiquiatria. Agora, depois de ler a sua história de vida, essa admiração não tem mais medida! Um forte abraço!

  4. Emilia Sumie Adachi @ 6 Jul, 2008 : 23:46
    Depoimento cativante! Sou nissei como você e me "vi" em vários pontos de seu depoimento: as comidas da infância, o Kai-kan o undoo-kai, as não-festas de aniversário, a rigidez da educação, o entendimento posterior da importância da cultura na minha formação... Estou hoje com 52 anos e sou muito grata a meus pais pela educação que me deram, apesar da rigidez e "frieza" com que sempre trataram as 4 filhas. Sem dúvida temos fatos marcantes da infância em comum, o que mostra o quão forte, padronizada e arraigada é a cultura dos nossos pais japoneses. Eu sei que carrego muito disso e com certeza, transmiti aos meus dois filhos. Um grande abraço, e obrigada por ter escrito tudo isso em "Sua história". Emília Sumie Adachi (Adati, como o Chiba) (emiliaada@via-rs.net)

  5. silvana lima @ 19 Jul, 2008 : 11:07
    tiba obrigado por existir você ajuda a milhares de pessoa atraves dos seus ensinamentos simples práticos e sou professora de educação infantil e me espelho muito em suas palavras para analisar os meus alunos mas há muita dificuldade em falar com os pais pois são em geral numa sala de 10 apenas 2 não são filhos únicos sendo assim os demais vivem em função de realizar os desejos de seus reis e rainhas fica dificil mas creio que vc sempre vai iluminar minhas palavras e colocações para ajudar esses pais a criarem os seus filhos pra vida e não para si. beijos no seu coração. ah, embora não nos conhecemos mas partilho muitas idéias e pensamentos seus FELIZ DIA DO AMIGO pq embora longe muito me ajuda.xau

  6. helena ueta suzuki @ 4 Ago, 2008 : 23:16
    Quando eu admiro uma pessoa sempre quero conhecê-la melhor. Nesse sentido gostei de ler passagens de sua vida e até pude compreender muitos aspectos da cultura japonesa. Meu pai era japonês e minha mãe é nissei. Na minha infância e adolescência eles falavam essas frases em japonês sobre "aguentar" e "não ficar resmungando" mas acreditava, por exemplo, que só eles não comemoravam o meu aniversário. Gosto de muitos aspectos de minha herança mas ser mais expansiva, não seguir à risca a hierarquia imposta pela cultura e demonstrar abertamente meus sentimentos me deram o tempero de que eu precisava e que só poderia encontrar aqui no Brasil. Entendo bem o que é ser "um japonês saidinho". Tenho 48 anos, também sou médica e posso dizer que em seus livros encontrei conceitos importantes sobre a vida e sobre educação. Essas informações complementaram minha vida profissional e pessoal, uma vez que tanto a faculdade como a residência médica são deficientes em fornecê-las. Além do domínio da língua portuguesa, fato importantíssimo para quem é nissei, seus textos são claros, com termos compreensíveis para todos os leitores e por apresentarem analogias muito interessantes determinaram o seu sucesso como escritor. Acredito que a felicidade está em construir uma vida rica em detalhes, com inúmeros obstáculos transpostos, lutando e reconhecendo todas as conquistas. PARABÉNS !

  7. Mirian Caixeta @ 5 Ago, 2008 : 00:35
    Parabéns Içami,pela luta e pela garra de seus pais,isto fez com que você desse um valor maior aos seus estudos e é o profissional competente que é.Herdou de seus pais e avós, a sua determinação.Conheço seu trabalho e sua obra,jamais pude imaginar que seus pais sofreram tanto.A eles meus respeitos e minha admiração.A você, o meu muito obrigada por ser um brasileiro descendente dos japoneses que eu admiro tanto,mas que nunca foi viver um eldorado que só existe na cabeça de sonhadores brasileiros que deixam nossa pátria pra viver horrores no estrangeiro.O meu abraço carinhoso de Mirian Caixeta.

  8. Marcelo Uchoa @ 20 Ago, 2008 : 08:34
    Bonita História de vida, Dr Içami, já o admirava muito antes do Congresso de Educadores em Juazeiro do Norte-CE e agora mais ainda com a bela História de luta dos seus pais e dedicação em educa os filhos. Parabéns a eles e ao senhor por ser quem é.

  9. dnazzar@ig.com.br @ 5 Set, 2008 : 22:45
    Dr. Içami, nasci e vivi em Taboão da Serra. Quase vizinha de seus pais.Hoje sou Pedagoga, sigo seus ensinamentos na área de piscopedagogia. Seu relato nos mostra que o sonho é maior. Acreditar nas portas que se abrem, arriscar e ter coragem são traços da cultura niponica. Me sinto orgulhosa por tê-lo conhecido ainda na minha infância, hoje trabalho com a neta de Dona Francisca esposa do Sr. Takaki, vizinhos de seus pais. O Sr. é pra mim um grande homem, que DEUS abençoe a o Sr. e a toda sua família.Sou sua fã incondicional. Delma

  10. Jorginho-camjvm@uol.com.br @ 13 Set, 2008 : 16:35
    A cada fala ou aparição do Dr. Içami Tiba na TV me deixa ainda mais orgulhoso, afinal é o nosso conterrânio, tapiraiense nato, o qual tive o previlégio de outorga-lo o titulo de cidadão benemérito tapirainse quando fui vereador da cidaddo 1993/1996. Enfim parabéns Dr. Içami por ser essa pessoa tão especial para Tapiraí/SP. Quem quiser saber mais acesse o site www.camaratapiraisp.com.br clique no icone Titulos de Cidadania e depois clique em cidadão benemériot

  11. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:30
    sou fã dele

  12. Isadora Mharry Oliveira da Silva @ 27 Out, 2008 : 18:59
    Reverências,Dr.Içami Tiba! Eu sou Isadora Mharry Oliveira da Silva, filha do professor e pedagogo Gervásio Oliveira da Silva, futura profissional de Educação Física, membro da Seicho-No-Ie do Brasil e leitora de seus livros, inclusive O Executivo e Sua família. Como você está? Eu vou bem, obrigada. Para mim,o senhor é psiquiatra-educador, pois seus livros falam de família e de educação entre pais e filhos, ontem ouvi a música da antiga banda Legião Urbana, (com Renato Russo): "Pais e Filhos", que fala justamente sobre a relação entre os pais e os filhos e lembrei-me do senhor! No meu trabalho de faculdade sobre a desordem motora, citei a sua frase do livro O Executivo e Sua Família e publiquei-a no trabalho, pois achei interessante. Por que o senhor não fala sobre a desordem motora no seu próximo livro sobre educação? Fica aqui esta sugestão singela. Vou confessar-lhe uma coisa:também tenho amigos japoneses e descendentes de japoneses na minha cidade, Manaus. Muito obrigada por você existir!Tenha sempre sucesso e saúde, pois você merece ser feliz!Saúde para a sua esposa e para toda a sua família! Um abraço de sua leitora e amiga:Isadora Mharry Oliveira da Silva.

  13. suleimavilaca.@yahoo.com.br @ 9 Nov, 2008 : 16:16
    Conheço seu trabalho há pouco tempo através do livro"Disciplina-limite na medida certa"e me apaixonei pelo seu discurso.Como mãe e professora primária deveria tê-lo conhecido a mais tempo.Talves não tivesse errado tanto! Mas nunca é tarde par aprender e, como você sempre relata em suas entrevistas,pais e professores devem estar sempre estudando.É o que procuro fazer sempre que possível.Descobri há pouco seu site através do livro "Conversas com Içami Tiba"e agora estou feita podendo ter acesso ao seu trabalho com esta facilidade da internet. E viva a tecnologia! Você é grande, sua história é grande. Parabéns e continue com a gente. Sua fã e admiradora.

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