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Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
67 anos, psiquiatra, escritor

O namoro, o casamento e as diferenças culturais


No segundo ano da faculdade, conheci Natércia – ela era prima de uma das estudantes do curso de obstetrícia — em um bailinho do tipo ‘asma’, isto é, ‘agarre seu médico agora’ [risos]. Era uma festa com umas doze moças paradas e uma única moça – ocidental – dançando com um rapaz que eu não conhecia. Pois eu gostei justamente dela. Já tinha fama de ‘saidinho’, comecei a ler a mão de todas as meninas, mas como eles ainda continuavam dançando, bati no ombro do cara e disse: ‘Dá licença, só falta ler a mão dela’. Enquanto ele se refazia do susto, peguei a mão da Natércia, explicando-lhe que no baile ela iria encontrar um japonês que queria dançar com ela fazia tempo... E já saí dançando! [esse fato é contado no livro Obrigado, minha esposa, Editora Gente].

Já havia namorado outras moças, meio namorador, mas nada que considerasse ser algo mais. Pouco tempo depois, meu irmão mais velho se casou. E de que jeito? Miai. E o segundo, advogado, também se casou por miai. Olha o que me esperava! Como se sabe, nesse método os noivos são apresentados depois que seus pais, com ajuda de um “miaiseiro”, já combinaram o casamento. Fala mais alto a tradição, depois os pais e, por último, os noivos. É da cultura japonesa que as filhas sejam entregues à família do noivo, e que a sogra tenha mais poder sobre a noiva do que a sua própria mãe. Mas ainda era muito estranho, no mínimo diferente, o casamento entre um nikkei e uma ocidental. Primeiro foram os japoneses a casar com as ocidentais e depois os ocidentais casando com as orientais. A grande diferença que existe no Brasil está na ordem dos valores: falam mais alto os próprios noivos, depois os pais e, por último, a tradição. Para quem tem a cultura japonesa dentro de si, aceita muito bem o casamento por miai. Meus irmãos casaram assim e acredito que tenham dado certo, pois os cônjuges continuaram juntos até o Nobuo falecer, e Rinji ainda vive com a esposa.

Pouco tempo depois de começarmos a namorar, levei Natércia para uma festa de final de ano em Taboão, onde a família inteira estava reunida em torno de uma grande mesa: vovô, papai, mamãe, irmão mais velho e toda uma hierarquia. Aliás, hierarquia para japonês é fundamental e equivale à igualdade para o Ocidente. A pior coisa que se pode fazer é quebrar uma hierarquia. Meu pai começou a falar em japonês e eu traduzi. Ele começou a se incomodar e meu irmão mais velho tomou suas dores: ‘Por que você está traduzindo?’ Respondi que estávamos no Brasil e, como havia uma pessoa que não entendia japonês, era questão de educação. Isso caiu como uma bomba, pois levei o Ocidente para o miolo do Oriente! Meu irmão levantou-se indignado, dizendo que eu nem estava mais em casa e ousava fazer isso, desrespeitar o papai! Até que meu avô pôs as coisas no lugar: ‘A vida é dele e, se ele gosta, ele vai casar. Ninguém vai falar nada, que podia traduzir, que não importava o costume diferente dela...’ Assim, ele autorizou ‘oficialmente’. O meu avô puxava a orelha, dava castigos, cascudo e tapas nos filhos até graúdos, mas comigo não. Ele sempre foi uma boa lembrança. No começo, a família de Natércia, portuguesa de Bragança, não aceitou muito bem, achavam um absurdo: não pelo fato de não gostarem de japonês, mas pela diferença de cultura. Além disso, eles também tinham um pretendente para ela.

Natércia conta: ‘Quando minhas amigas me falavam do Içami, já me contaram que ele era inteligente, festeiro... Eu tinha um pretendente e muitas dúvidas porque fui preparada para aquela coisa de casar bem, com alguém estudado, não de outra cultura. Naquela época a gente não namorava fora e, assim que ele entrou em casa, meus pais logo gostaram dele. Aliás, todos que o conheciam logo se apaixonavam. Nós tínhamos persistência para enfrentar as resistências da parte dele e eu sempre tive consciência de que eles não queriam nossa união não por não gostar de mim como pessoa. Eles lutavam por algo que valorizavam. De minha parte – talvez eles nem se dessem conta disso — eu tinha certeza de que levaria comigo o melhor deles todos, o filho deles, o mais especial!’

Mesmo com o avô autorizando, a família não aceitava o casamento. Contamos muito com a ajuda do meu tio paterno mais novo, Kurata, e sua esposa Kikuo Takeoka. Mais tarde, eles seriam nossos padrinhos de casamento e eu fui praticamente o filho que eles não tiveram. Portanto, Natércia e eu somos muito gratos a eles. Tio Kurata, aos 87 anos, é muito lúcido: assiste ao canal japonês de TV e lê diariamente o jornal São Paulo Shimbun, escrito em japonês. Meus tios sempre moraram sozinhos e, após o falecimento da Kiku-chan, Kurata continuou sozinho, ali, na mesma casa desde 1953, no bairro de Pinheiros.

Católica, a família de Natércia considerava a cerimônia religiosa muito importante e queriam tudo certinho. Então, fui batizado pelo padre [Shigeo] Takeuchi, o mesmo que recebeu meus irmãos no São Francisco Xavier. Eu fazia residência e a Natércia estava no terceiro ano da faculdade de direito. Na véspera da cerimônia, meus pais me procuraram para dizer que não iriam atrapalhar, mas também não iriam ajudar. Não contamos com eles, mas levei a roupa para o meu pai usar. Mas, no dia, minha família inteira compareceu ao meu casamento, celebrado pelo padre Takeuchi em 1969, depois de quatro anos de namoro.

Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba


Enviada em: 02/07/2008 | Última modificação: 18/07/2008
 
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Comentários

  1. Susilene Uwagoya @ 3 Jul, 2008 : 06:19
    Uma história de muita luta e perseverança!!! E o sucesso como mérito! !!

  2. Klissia Tiba @ 3 Jul, 2008 : 14:52
    Olá Içami! Tudo bem? Parabéns pelo trabalho! Suas obras são muito boas! Temos o mesmo sobrenome, será que temos algum parentesco? Bom, eu vi que em sua galeria tem uma foto do brasão da família Tiba, você se importa se eu também colocar a foto na minha galeria? Obrigada. Sucesso para você! Klissia Tiba.

  3. Ryoki Inoue @ 4 Jul, 2008 : 18:41
    Tiba, velho colega! Parabéns por seu depoimento (biografia, na verdade)! A admiração que sempre tive por você, desde os nossos tempo de judô na Pinheiros, ficou ainda maior depois de tê-lo visto fazendo sucesso na psiquiatria. Agora, depois de ler a sua história de vida, essa admiração não tem mais medida! Um forte abraço!

  4. Emilia Sumie Adachi @ 6 Jul, 2008 : 23:46
    Depoimento cativante! Sou nissei como você e me "vi" em vários pontos de seu depoimento: as comidas da infância, o Kai-kan o undoo-kai, as não-festas de aniversário, a rigidez da educação, o entendimento posterior da importância da cultura na minha formação... Estou hoje com 52 anos e sou muito grata a meus pais pela educação que me deram, apesar da rigidez e "frieza" com que sempre trataram as 4 filhas. Sem dúvida temos fatos marcantes da infância em comum, o que mostra o quão forte, padronizada e arraigada é a cultura dos nossos pais japoneses. Eu sei que carrego muito disso e com certeza, transmiti aos meus dois filhos. Um grande abraço, e obrigada por ter escrito tudo isso em "Sua história". Emília Sumie Adachi (Adati, como o Chiba) (emiliaada@via-rs.net)

  5. silvana lima @ 19 Jul, 2008 : 11:07
    tiba obrigado por existir você ajuda a milhares de pessoa atraves dos seus ensinamentos simples práticos e sou professora de educação infantil e me espelho muito em suas palavras para analisar os meus alunos mas há muita dificuldade em falar com os pais pois são em geral numa sala de 10 apenas 2 não são filhos únicos sendo assim os demais vivem em função de realizar os desejos de seus reis e rainhas fica dificil mas creio que vc sempre vai iluminar minhas palavras e colocações para ajudar esses pais a criarem os seus filhos pra vida e não para si. beijos no seu coração. ah, embora não nos conhecemos mas partilho muitas idéias e pensamentos seus FELIZ DIA DO AMIGO pq embora longe muito me ajuda.xau

  6. helena ueta suzuki @ 4 Ago, 2008 : 23:16
    Quando eu admiro uma pessoa sempre quero conhecê-la melhor. Nesse sentido gostei de ler passagens de sua vida e até pude compreender muitos aspectos da cultura japonesa. Meu pai era japonês e minha mãe é nissei. Na minha infância e adolescência eles falavam essas frases em japonês sobre "aguentar" e "não ficar resmungando" mas acreditava, por exemplo, que só eles não comemoravam o meu aniversário. Gosto de muitos aspectos de minha herança mas ser mais expansiva, não seguir à risca a hierarquia imposta pela cultura e demonstrar abertamente meus sentimentos me deram o tempero de que eu precisava e que só poderia encontrar aqui no Brasil. Entendo bem o que é ser "um japonês saidinho". Tenho 48 anos, também sou médica e posso dizer que em seus livros encontrei conceitos importantes sobre a vida e sobre educação. Essas informações complementaram minha vida profissional e pessoal, uma vez que tanto a faculdade como a residência médica são deficientes em fornecê-las. Além do domínio da língua portuguesa, fato importantíssimo para quem é nissei, seus textos são claros, com termos compreensíveis para todos os leitores e por apresentarem analogias muito interessantes determinaram o seu sucesso como escritor. Acredito que a felicidade está em construir uma vida rica em detalhes, com inúmeros obstáculos transpostos, lutando e reconhecendo todas as conquistas. PARABÉNS !

  7. Mirian Caixeta @ 5 Ago, 2008 : 00:35
    Parabéns Içami,pela luta e pela garra de seus pais,isto fez com que você desse um valor maior aos seus estudos e é o profissional competente que é.Herdou de seus pais e avós, a sua determinação.Conheço seu trabalho e sua obra,jamais pude imaginar que seus pais sofreram tanto.A eles meus respeitos e minha admiração.A você, o meu muito obrigada por ser um brasileiro descendente dos japoneses que eu admiro tanto,mas que nunca foi viver um eldorado que só existe na cabeça de sonhadores brasileiros que deixam nossa pátria pra viver horrores no estrangeiro.O meu abraço carinhoso de Mirian Caixeta.

  8. Marcelo Uchoa @ 20 Ago, 2008 : 08:34
    Bonita História de vida, Dr Içami, já o admirava muito antes do Congresso de Educadores em Juazeiro do Norte-CE e agora mais ainda com a bela História de luta dos seus pais e dedicação em educa os filhos. Parabéns a eles e ao senhor por ser quem é.

  9. dnazzar@ig.com.br @ 5 Set, 2008 : 22:45
    Dr. Içami, nasci e vivi em Taboão da Serra. Quase vizinha de seus pais.Hoje sou Pedagoga, sigo seus ensinamentos na área de piscopedagogia. Seu relato nos mostra que o sonho é maior. Acreditar nas portas que se abrem, arriscar e ter coragem são traços da cultura niponica. Me sinto orgulhosa por tê-lo conhecido ainda na minha infância, hoje trabalho com a neta de Dona Francisca esposa do Sr. Takaki, vizinhos de seus pais. O Sr. é pra mim um grande homem, que DEUS abençoe a o Sr. e a toda sua família.Sou sua fã incondicional. Delma

  10. Jorginho-camjvm@uol.com.br @ 13 Set, 2008 : 16:35
    A cada fala ou aparição do Dr. Içami Tiba na TV me deixa ainda mais orgulhoso, afinal é o nosso conterrânio, tapiraiense nato, o qual tive o previlégio de outorga-lo o titulo de cidadão benemérito tapirainse quando fui vereador da cidaddo 1993/1996. Enfim parabéns Dr. Içami por ser essa pessoa tão especial para Tapiraí/SP. Quem quiser saber mais acesse o site www.camaratapiraisp.com.br clique no icone Titulos de Cidadania e depois clique em cidadão benemériot

  11. japa pobre @ 25 Set, 2008 : 02:30
    sou fã dele

  12. Isadora Mharry Oliveira da Silva @ 27 Out, 2008 : 18:59
    Reverências,Dr.Içami Tiba! Eu sou Isadora Mharry Oliveira da Silva, filha do professor e pedagogo Gervásio Oliveira da Silva, futura profissional de Educação Física, membro da Seicho-No-Ie do Brasil e leitora de seus livros, inclusive O Executivo e Sua família. Como você está? Eu vou bem, obrigada. Para mim,o senhor é psiquiatra-educador, pois seus livros falam de família e de educação entre pais e filhos, ontem ouvi a música da antiga banda Legião Urbana, (com Renato Russo): "Pais e Filhos", que fala justamente sobre a relação entre os pais e os filhos e lembrei-me do senhor! No meu trabalho de faculdade sobre a desordem motora, citei a sua frase do livro O Executivo e Sua Família e publiquei-a no trabalho, pois achei interessante. Por que o senhor não fala sobre a desordem motora no seu próximo livro sobre educação? Fica aqui esta sugestão singela. Vou confessar-lhe uma coisa:também tenho amigos japoneses e descendentes de japoneses na minha cidade, Manaus. Muito obrigada por você existir!Tenha sempre sucesso e saúde, pois você merece ser feliz!Saúde para a sua esposa e para toda a sua família! Um abraço de sua leitora e amiga:Isadora Mharry Oliveira da Silva.

  13. suleimavilaca.@yahoo.com.br @ 9 Nov, 2008 : 16:16
    Conheço seu trabalho há pouco tempo através do livro"Disciplina-limite na medida certa"e me apaixonei pelo seu discurso.Como mãe e professora primária deveria tê-lo conhecido a mais tempo.Talves não tivesse errado tanto! Mas nunca é tarde par aprender e, como você sempre relata em suas entrevistas,pais e professores devem estar sempre estudando.É o que procuro fazer sempre que possível.Descobri há pouco seu site através do livro "Conversas com Içami Tiba"e agora estou feita podendo ter acesso ao seu trabalho com esta facilidade da internet. E viva a tecnologia! Você é grande, sua história é grande. Parabéns e continue com a gente. Sua fã e admiradora.

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